Anos 1990

Visibilidade e reconhecimento popular

A despeito da escassez de verbas federais para pesquisa, que se prolongou pelos primeiros cinco anos, a década de 1990 terminou marcada por duas grandes conquistas.

A primeira foi a consolidação da abertura da Coppe para as demandas econômicas e sociais, que passaram a permear parte das teses produzidas. Estas, por sua vez, davam sustentação acadêmica ao crescente envolvimento da instituição na discussão de temas polêmicos, de interesse da sociedade – quase sempre tendo governantes e técnicos do governo do outro lado da mesa de debate.

Os assuntos abordados iam desde questões pontuais até a estratégia de privatizações do governo federal e os riscos de crise na geração e transmissão de energia elétrica, que culminou no “apagão” nacional por falhas no planejamento energético. A Coppe ganhou visibilidade fora dos círculos acadêmicos. Tornou-se mais conhecida em âmbito nacional e reconhecida pela sociedade.

Ao mesmo tempo, começou a ganhar uma infraestrutura laboratorial compatível com o porte de sua atuação. Em 1996, foi inaugurado o I-2000, o maior complexo de laboratórios da América Latina na área de engenharia. Com apoio da Petrobras, 82 laboratórios foram instalados em 10 mil metros quadrados de área construída. Nascia uma nova modalidade de cooperação com empresas: a construção conjunta de laboratórios.

Na segunda metade da década, finalmente surgiram novos mecanismos oficiais de apoio à pesquisa, como o Programa Nacional de Núcleos de Excelência (Pronex) e os fundos setoriais formados com contribuições obrigatórias das empresas nas áreas de petróleo e telecomunicações. Preparados para aproveitar as novas oportunidades, dirigentes e professores da Coppe rapidamente apresentaram uma coleção de projetos e substituíram por instalações modernas e muito bem-equipadas a rede de laboratórios montada nos 30 anos anteriores.

A Coppe preparava-se, assim, para entrar no século XXI.

O papel da Coppetec

Nos anos mais duros da falta de verbas federais, a Coppetec, setor criado em 1970 para administrar a prestação de serviços a empresas e órgãos públicos, tinha se tornado uma fonte importante de recursos, graças, sobretudo, aos contratos com a Petrobras, que haviam ganhado impulso a partir de 1977. No fim dos anos 1980 a Coppetec garantia 25% do orçamento da Coppe. Foi então que o governo federal, pressionado pela necessidade de engordar o orçamento da União, voltou os olhos para todas as fontes de recursos na administração pública que não passavam pelos controles do Tesouro.

Duas auditorias federais confirmaram a probidade e a lisura no trato dos recursos da Coppetec, mas exigiram mudanças em procedimentos administrativos, que, na prática, significavam tirar da Coppe a liberdade para aplicar os recursos que recebia por meio da Coppetec. Todo o seu orçamento ficaria engessado.

A solução foi transformar, em 1993, a Coppetec em fundação. A Fundação Coppetec administra os contratos de prestação de serviços, disciplinando a alocação de tempo dos professores, e distribui os recursos obtidos, seguindo normas claras e austeras. Em 2011, a Fundação contabilizava um total de 12,7 mil contratos firmados. Boa parte deles ajudou a financiar a instalação da rede de laboratórios que se espalhou pelo campus nas décadas de 1990 e 2000.

A Área Interdisciplinar de Energia – formalmente criada em 1979 pelos Programas de Engenharia de Sistemas, Nuclear e Produção – cresceu a ponto de ganhar autonomia. Em 1992, o Programa de Planejamento Energético (PPE) tornou-se o 12º da Coppe e a primeira pós-graduação do país na área. Com um forte viés ambiental, o PPE estimulou o surgimento de projetos que buscam respostas ao grande desafio do mundo contemporâneo: conciliar a crescente demanda de energia com a necessidade de proteger o meio ambiente. 

O intenso uso de computação levou à compra, em 1995, de um Cray, o primeiro supercomputador da Coppe. O equipamento facilitou a realização de pesquisas em outras unidades da UFRJ e em várias instituições acadêmicas de grande porte no Brasil: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF); Centro Técnico Aeroespacial (CTA); Universidade de São Paulo (USP) , Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre outras.

Outro exemplo é a Área de Engenharia de Sistemas de Saúde, do Programa de Engenharia Biomédica. Essa área é responsável pela produção de diagnósticos e soluções para aumentar a eficiência da gestão dos sistemas de saúde público e privado, que, em geral, lutam com a pressão para acompanhar o avanço contínuo das tecnologias médicas e a correspondente alta de custos. Em cooperação com as autoridades de saúde, o programa passa a ajudar a impulsionar a aplicação de técnicas avançadas de gestão no setor. 

As instituições de desenvolvimento de tecnologia no Brasil se ressentiam da dificuldade de ver em uso o resultado de seu trabalho. Relativamente poucas tecnologias brasileiras chegavam de fato aos setores de produção e consumo. 

A resposta da Coppe foi criar, em 1994, sua Incubadora de Empresas de Base Tecnológica, uma novidade no Brasil da época. Ambientes que estimulam a criação e tornam possível o desenvolvimento de novas empresas, as incubadoras abrigam o novo negócio por um período de tempo limitado, garantindo-lhe infraestrutura e assistência até que alcance maturidade para sobreviver por conta própria no mercado.

A incubadora recebe empreendimentos nascidos de grupos de pesquisa de várias áreas da UFRJ, a maioria da Coppe. No fim dos anos 2000, 50 empresas já haviam se graduado, ou seja, estavam inseridas autonomamente no mercado.

A determinação de usar o conhecimento acadêmico para influir na agenda do país e nas políticas e ações das diferentes esferas de governo ganhou impulso na Coppe nos anos 1990.

Na segunda metade da década, apoiada em estudos do Programa de Planejamento Energético, a instituição alertou publicamente: o Brasil rumava para uma grave crise no abastecimento de energia elétrica, porque a estratégia de privatizações no setor negligenciara o planejamento da expansão do parque de usinas hidrelétricas. O governo federal contestava os dados e as análises da Coppe, a discussão se prolongou e teve momentos acalorados. Os fatos acabaram comprovando a procedência da avaliação e do alerta dos pesquisadores da Coppe. Em 2001, o governo federal decretou o racionamento de energia elétrica para toda a população, sob pena de desligamento temporário da residência ou empresa que não cumprisse o corte no consumo.

Questões mais pontuais, mas igualmente relevantes para a população, também foram objeto de debates acalorados com governos. Já em meados dos anos 1980, professores da Coppe alertaram que o governo estadual estava negligenciando a manutenção de pontes e viadutos cariocas, ameaçados por corrosão das ferragens.

Em 1988, o problema foi detectado no viaduto do Joá, importante via de escoamento do tráfego entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca. O conserto, emergencial, só foi realizado em 1991, por meio de intervenção judicial, e não resolveu de vez o problema.

Resultado de mais longo alcance teve uma iniciativa tomada em 1996. Em 13 de fevereiro daquele ano, um violento temporal na cidade do Rio de Janeiro matou uma centena de pessoas e desabrigou mais de 6 mil.  A Coppe realizou o seminário Prevenção e Controle dos Efeitos dos Temporais no Rio de Janeiro. O evento foi uma parceria com a Rede Nacional de Mobilização Social – Coep, criada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Foi uma experiência rara, na época, de mobilização de técnicos de governo, cientistas, políticos e militantes de ONGs para discutirem em conjunto um tema candente para a sociedade, resultando em recomendações técnicas.

O resultado foi um relatório com diagnósticos e sugestão de soluções para os principais problemas. Publicado em formato de livro, sob o título Tormentas cariocas, o trabalho foi amplamente divulgado pela Assessoria de Comunicação, setor criado na Coppe em 1995, e distribuído para autoridades governamentais, órgãos públicos e outras instituições. 

Diversas sugestões contidas na publicação foram postas em prática, como a criação de um sistema de alerta meteorológico, o Alerta Rio; a criação de formas de articulação dos diversos órgãos municipais, estaduais e federais; o uso do conceito de bacia hidrográfica como unidade para diagnóstico e intervenção; a intensificação de estudos para soluções e ações de prevenção de riscos em encostas; a implementação de projetos de educação ambiental nas comunidades.

Nos anos seguintes, os programas da Coppe ampliaram o conhecimento dos fenômenos associados às chuvas e seus efeitos sobre as cidades – um conhecimento que se mostraria vital, diante do aumento da frequência e intensidade dos temporais.

Muitos outros estudos e tecnologias foram desenvolvidos para solucionar questões importantes para o país. Entre dezenas de exemplos, destacam-se projetos para melhorar a mobilidade nas cidades; despoluir rios; tornar mais eficiente a geração e o uso de energia; reduzir impactos ambientais em aglomerados urbanos brasileiros, em estuários e outros ecossistemas; e tornar tratamentos médicos mais eficazes e acessíveis à população. 

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