Anos 1980

A festa da liberdade e os bolsos vazios

Foram tempos difíceis. De um lado, vivia-se a turbulência dos embates, rearranjos políticos e lutas pela redemocratização do país.  De outro, as dificuldades econômicas que marcaram a chamada “década perdida” do Brasil.

Às voltas com um quadro de inflação alta, pesada dependência de petróleo importado e explosão dos juros da dívida externa, o governo federal abandonou gradativamente o papel de indutor do desenvolvimento científico e tecnológico. É verdade que o sistema de apoio à ciência e tecnologia montado no regime militar foi até enriquecido com a criação, logo no primeiro governo civil, do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 1985. Mas, na prática, as verbas para o setor minguavam.

Na busca de recursos, a Coppe teve de colocar, com mais ênfase, seu trabalho a serviço das demandas das empresas e órgãos de governo e aprender a fazê-lo sem comprometer a postura de independência e rigor acadêmico. A prática das novas liberdades democráticas, que incluíam a escolha de dirigentes pelo voto direto, também foi um árduo aprendizado.

Das turbulências políticas e econômicas surgiram as novas lideranças que conduziriam a instituição nas décadas seguintes. Não apenas a Coppe sobreviveu sem perder a identidade e a qualidade, como aprofundou sua aproximação com a sociedade. Nos anos 1980, temas estratégicos como a relação entre energia e meio ambiente começaram a entrar em sua agenda.

Foi também nessa década quando ganhou força a parceria histórica entre a Coppe e a Petrobras, cujo primeiro projeto foi realizado nos anos 1960. Mas foi em 1977 que a parceria ganhou forte impulso, resultando no desenvolvimento da tecnologia que possibilitou à empresa projetar suas próprias plataformas e permitiu extrair petróleo das profundezas do mar de Campos. Essa tecnologia pôs o Brasil na liderança da produção em águas profundas e economizou bilhões de dólares em divisas para o país. A cooperação gerou mais de 3 mil projetos até 2013 e centenas de teses e dissertações.

Em 1982, a presidência da República ainda era ocupada por um militar, mas já se iniciara a transição para a democracia. Os punidos do regime tinham sido anistiados em 1979 e o Ato Institucional nº 5, principal instrumento do arbítrio, fora extinto um ano antes. O movimento sindical se reorganizava e crescia. Novos partidos políticos surgiam, antigos partidos ressurgiam.

Na Coppe, também se iniciou um novo ciclo. Assume a direção da Coppe Paulo Alcântara Gomes (1979 a 1981), sucedendo Sergio Neves Monteiro (1976 a 1978). O Conselho Deliberativo, órgão formado por todos os professores e por representantes dos alunos, extinto por Sydney Santos, foi restabelecido na gestão do professor Sandoval Carneiro (1982-1985). Em 1986, o professor Luiz Pinguelli Rosa assume a direção da Coppe, sendo o primeiro diretor eleito pelo voto direto.

Pressionado pela necessidade de cortar custos, o governo mandava a Finep retirar o apoio dado à  Coppe. Ao mesmo tempo, a Capes e o CNPq, tradicionais provedores das bolsas de estudos, reduziam o número e o valor das bolsas. Começava a ficar difícil atrair alunos.

No fim das contas, preservaram-se os dedos e os anéis. Apesar da persistência das dificuldades econômicas, algumas boas oportunidades foram aproveitadas. A Coppe deu impulso a importantes projetos de cooperação com empresas, que resultariam mais tarde em ganhos científicos e tecnológicos vitais para o país.

Eles foram para o mar: o sucesso da parceria Coppe e Petrobras                                                     

No começo dos anos 1980, nenhum país dominava a tecnologia para tirar petróleo de águas muito profundas. Desde 1974, a Petrobras fazia sucessivas descobertas de óleo nas profundezas da Bacia de Campos. O desafio era tirá-lo desse local. E havia urgência. Um dos maiores problemas da economia brasileira de então era a dependência de petróleo importado – as importações cobriam 70% da demanda nacional.    

O desequilíbrio das contas externas causado pelos gastos com petróleo, iniciado com as duas grandes altas dos preços internacionais, em 1973 e 1979, agravou-se na década de 1980 com a chamada crise da dívida. Os pagamentos de juros dos empréstimos estrangeiros pularam de US$ 514 milhões, em 1973, para US$ 9,5 bilhões, em 1983. Não havia muito que o Brasil pudesse fazer. Mas um rápido aumento na produção interna de petróleo amenizaria bastante a situação.

Foi nesse pano de fundo que a Petrobras e a Coppe assinaram, em 1977, o histórico convênio de cooperação que ajudou a mudar a face da indústria brasileira de petróleo. Considerado modelo de caso de sucesso entre empresa e universidade, deu início a uma parceria duradoura que, há décadas, resulta em benefícios para o Brasil e a sociedade brasileira.

Ao lado da Petrobras, professores, alunos e técnicos da Coppe mergulharam no mar. Ajudaram a erguer, no oceano, a tecnologia que hoje dá ao Brasil a liderança mundial da exploração e produção de petróleo em águas profundas.

A cooperação, que permanece até hoje, gerou até 2013 mais de 3 mil projetos de pesquisa, formou centenas de mestres e doutores e resultou na criação de cursos de pós-graduação lato sensu e de especialização.

O convênio entre a Petrobras e a Coppe para o desenvolvimento das tecnologias de projeto das plataformas nasceu do esforço de pesquisadores do Programa de Engenharia Civil, que conseguiram convencer os técnicos da empresa a investir na parceria.  Tratava-se de colocar a serviço da Petrobras a competência acumulada na Coppe em uma área da engenharia chamada de análise estrutural. Pelo convênio, a Coppe desenvolveria sistemas computacionais específicos para projetar estruturas complexas que operam em condições dinâmicas, como as plataformas de petróleo no mar. Com esses sistemas, a Petrobras poderia projetar suas próprias plataformas. E, melhor, seriam projetos específicos para as condições do mar brasileiro – um serviço que nenhum escritório estrangeiro poderia fornecer.

Em 1985, 33 plataformas fixadas, cujo projeto se baseou no trabalho da Coppe para trabalhar em águas pouco profundas (10 a 48 metros), já estavam em operação em campos marítimos do Nordeste e do Espírito Santo. No mesmo ano, a Petrobras já fazia o projeto das sete primeiras plataformas inteiramente nacionais para a operação nas águas profundas (100 metros de profundidade) da Bacia de Campos.

Para a Coppe, o sucesso do convênio do Programa de Engenharia Civil abriu uma ampla frente de cooperações com a empresa, ainda nos anos 1980. À medida que iam surgindo novos e diferentes projetos, outros programas eram mobilizados: Engenharia Naval e Oceânica; Metalurgia e Materiais; Engenharia Química; e Engenharia Elétrica.

Para o Brasil, o convênio ajudou a mudar a face da indústria de petróleo. As décadas de 1980 e 1990 assistiram a sucessivas quebras de recorde na produção da Petrobras em águas cada vez mais profundas. E o país entrou no pelotão de frente do seleto grupo de países detentores de tecnologia de produção de petróleo no mar.

Tecnologia para avançar mar adentro

Quando a profundidade das operações no mar de Campos alcançou a casa das centenas de metros, foi preciso abandonar as plataformas fixas cravadas no fundo do mar e recorrer a estruturas flutuantes. Primeiro, foram as plataformas semissubmersíveis. Em seguida, navios-plataforma (antigos petroleiros convertidos) também passaram a ser usados.

Nesse processo, aumentou a participação dos pesquisadores do Programa de Engenharia Naval e Oceânica, que se juntaram aos pioneiros da Engenharia Civil. Conhecedores da hidrodinâmica marítima, ajudaram a ampliar o conhecimento específico sobre o mar brasileiro.

Uma parte importante do trabalho da Coppe para a Petrobras é o desenvolvimento de técnicas para monitorar o comportamento das estruturas no mar e informá-las aos projetistas dessa empresa. Uma dessas técnicas, desenvolvida ainda nos anos 1980, é usada ainda hoje para fazer a simulação numérica de sistemas de proteção catódica contra a corrosão dos equipamentos. Outra resultou num sofisticado sistema de monitoramento da fadiga de juntas tubulares.

O convênio de cooperação assinado em 1977 foi extinto no começo dos anos 1990. Não fazia mais sentido mantê-lo porque a cooperação com a Petrobras já ocorria em muitas frentes, com múltiplas formas de financiamento e participação de muitos programas da Coppe.  

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