Anos 1970

Época de ouro, tempos de chumbo

A segunda década de vida da Coppe foi marcada pela grande crise que resultou na saída de seu fundador, Alberto Luiz Galvão Coimbra, em 1973. Era o auge da ditadura militar. Conflitos e disputas internas de poder encontravam, no clima nacional de medo e delação, um ambiente favorável a ameaças e denúncias que extrapolavam as fronteiras da universidade e iam bater às portas dos órgãos de segurança do regime.

O traumático afastamento de Coimbra pôs em risco a própria sobrevivência da Coppe. Por algum tempo, temia-se que a instituição fosse dissolvida dentro da universidade, com seus cursos entregues a diferentes departamentos das Escolas de Química e de Engenharia. Professores acusados de serem lenientes com alunos suspeitos de envolvimento em atividades políticas foram demitidos; outros, desencantados, pediram demissão.

Mas as sementes plantadas por Coimbra resistiram. Os princípios que ele transmitira a docentes e discípulos, de compromisso com a excelência acadêmica e com o interesse maior da sociedade brasileira, foram mais fortes. A Coppe não apenas sobreviveu como experimentou, nos anos seguintes, uma grande mudança de patamar na sua produção acadêmica, o que lhe permitiria, mais tarde, consolidar sua posição como produtora de conhecimento e tecnologia para o país.

Um marco da época foi a assinatura, em 1977, de um convênio de cooperação com a Petrobras, para desenvolver a tecnologia necessária para essa empresa petrolífera brasileira projetar suas próprias plataformas de produção de petróleo. Desde então, o trabalho conjunto da Coppe com a Petrobras ajudou a colocar o Brasil entre os países líderes mundiais da tecnologia de produção de petróleo no mar.

Pioneirismos da Coppe

No começo da década de 1970, vivia-se o chamado “milagre brasileiro”. A estratégia do governo era aprofundar a política de substituição de importações e ampliar os investimentos em infraestrutura. A economia crescia em torno de 10% ao ano. Em consequência, a demanda por tecnologia aumentava, e multiplicavam-se as oportunidades para engenheiros altamente qualificados, favorecendo, assim, instituições de pesquisa científica e tecnológica como a Coppe.

Preocupada em resguardar os princípios que presidiram sua criação – excelência acadêmica, trabalho em tempo integral e dedicação exclusiva –, a Coppe saiu-se com uma iniciativa inédita no Brasil. Criou a Coppetec, para disciplinar a prestação de serviços de seus professores em projetos do interesse de indústrias e órgãos públicos. Os objetivos eram garantir que suas atividades acadêmicas não fossem prejudicadas pelas encomendas e, ao mesmo tempo, manter os pesquisadores em contato com a realidade e as necessidades das empresas e da sociedade. Outra finalidade era gerar para a própria Coppe recursos que poderiam ser aplicados livremente, sem as amarras burocráticas das verbas governamentais.

O modelo da Coppetec, que décadas mais tarde seria transformada em fundação, funcionou tão bem que inspirou a criação de órgãos semelhantes em outras universidades.

Também em 1970 foram criados mais quatro cursos,* aumentando para 11 o número de programas. Também foi defendida a primeira tese de doutorado produzida na Coppe – marco inicial de um novo patamar acadêmico. Intitulado a O método dos elementos finitos: fundamentos teóricos – automatização – aplicações a problemas de placas e de elasticidade plana, o trabalho, de Alcebíades de Vasconcellos Filho, foi apresentado ao Programa de Engenharia Civil.

Em 1973, um projeto gestado desde 1971 se tornou realidade. Com o apoio do Ministério do Planejamento, nasceu, dentro do Programa de Engenharia de Produção, a Coppead – a primeira business school do Brasil. Era inspirada nos cursos que então nasciam nos Estados Unidos e, hoje, são fartamente conhecidos, aqui e lá, como MBA – Master of Business Administration. Na época, as escolas brasileiras de administração de empresas só ofereciam curso de graduação. A Coppe, uma pós-graduação de engenharia, ousou trazer a novidade para o Brasil. Nos anos 1980, a Coppead ganhou autonomia e se descolou da nave-mãe.

Essa independência ocorreria, em diferentes épocas, em outras iniciativas que nasceram na Coppe nos anos 1960 e 1970 e conquistaram espaço próprio na UFRJ: a área de Planejamento Urbano (PUR) originou o atual Instituto de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Políticas Regionais (Ippur); o Programa de Engenharia Matemática foi transferido para o Instituto de Matemática; a Divisão de Cálculo Científico, onde se abrigava o grande computador doado pela IBM nos anos 1960, se transformou no atual Núcleo de Computação Eletrônica (NCE/UFRJ), e da Ecotec adveio a pós-graduação do Instituto de Economia da UFRJ.

No dia 18 de maio de 1973, o reitor da UFRJ, Djacir Menezes, afastou Alberto Luiz Galvão Coimbra da direção da Coppe. Era o desfecho de uma disputa interna entre visões de mundo totalmente diferentes. A euforia cultural em torno do novo que caracterizara a virada dos anos 1950 para os 1960, passou a ser vista, pelos donos do poder que emergiram com o golpe militar de 1964, como transgressora.

Enquanto, nos anos 1950, o presidente da República, Juscelino Kubitschek, era louvado por cantores e compositores como o “presidente bossa nova”, no governo do general Emílio Médici (1969-1974) intelectuais e artistas como Chico Buarque, Augusto Boal, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros, eram forçados a partir para o exílio.  

A conhecida ousadia de Coimbra, que o fizera trazer os melhores cientistas para o Rio, fossem eles da União Soviética ou dos Estados Unidos, não contribuía para uma sintonia com o regime. Sempre disposto a fazer o que considerava melhor para a Coppe, ele seguia em frente, ignorando as polarizações ideológicas.

No início dos anos 1970, a convite de Coimbra, tinham chegado à Coppe três professores vindos de outras instituições para chefiar três programas: Engenharia Biomédica, Engenharia de Sistemas e Engenharia Elétrica. Um deles, coordenador da Engenharia Elétrica, era um general.

Os três entraram em choque com a visão progressista de Coimbra, cujo objetivo era criar uma instituição inovadora que englobava programas e não repetir a fórmula de departamentos isolados. Questionavam seus métodos administrativos e provocaram a abertura de uma comissão de inquérito na universidade. Não tardou para que a existência da tal comissão fosse denunciada à temida Polícia Federal.

Foi assim que uma disputa interna acabou por envolver os órgãos de repressão da ditadura militar e resultou na demissão do fundador da Coppe.

Em 18 de maio de 1973, o reitor Djacir Menezes afastou Coimbra e nomeou Sydney Martins Gomes dos Santos, vice-reitor da UFRJ, professor da Escola de Engenharia e docente do Programa de Engenharia Civil da Coppe.

Sydney escolheu como seu vice-diretor um dos professores mais próximos do fundador, Carlos Alberto Perlingeiro, do Programa de Engenharia Química, que se desdobrou para ajudá-lo a administrar a Coppe e, principalmente, a pacificá-la. De um lado, mostrava ao diretor as intenções e méritos das ideias e ações de Coimbra. De outro, ajudava-o a apagar os incêndios provocados pelos constantes curtos-circuitos nas relações com o corpo docente.

Mas, nos corredores, ouviam-se boatos de que a Coppe acabaria e seria loteada entre a Escola de Engenharia e a Escola de Química. Inseguros ou desencantados, vários professores foram embora. Os alunos começaram a se agitar. Em meados de 1973, fizeram uma greve contra atrasos do pagamento de bolsas de estudos. Os ânimos no campus ficaram ainda mais acirrados.

Em seguida, explodiu um conflito numa área multidisciplinar subordinada ao Programa de Engenharia de Produção, denominada Planejamento Urbano e Regional (PUR). Na prática, o PUR funcionava como um programa, com seu próprio coordenador. Havia sido criado com o apoio do governo federal, por meio do Banco Nacional da Habitação. Ao contrário dos outros programas, ocupados principalmente por engenheiros, no PUR predominavam professores e alunos dos cursos de Arquitetura, Urbanismo e Ciências Sociais. Tinham um perfil mais crítico às políticas governamentais.

Em 1976, um professor do PUR acusou colegas de disseminarem o marxismo em suas salas de aula. O diretor da Coppe, Sidney Santos, resolveu demitir 7 dos 12 professores que atuavam na área. Em seguida, insatisfeitos com a situação, três docentes saíram e, consequentemente, a área foi extinta.

Visto como interventor e tratado com desconfiança pelos alunos e docentes mais ligados a Coimbra, Sydney Santos ficou ainda mais desgastado com a crise do PUR. A escolha de Perlingeiro como vice-diretor e a demissão dos três coordenadores de programas que haviam desencadeado a crise que afastou Coimbra não bastaram para lhe aumentar a popularidade.

Coimbra, a essa altura, estava abrigado num obscuro posto de assessor na Finep, respondendo a processo na Justiça Federal. Em 12 de agosto de 1976, acatando recomendação do procurador da República, José de Oliveira Bastos, o juiz José Gregório Marques, da 4ª Vara Federal, declarou extinto o processo contra ele.

O fundador da Coppe permaneceu no ostracismo até 1981, quando a ditadura arrefecia e o próprio ministro da Educação, coronel Rubem Ludwig, lhe concedeu o Prêmio Anísio Teixeira. Em 1984, já nos estertores do regime militar, a Finep o devolveu à UFRJ. O fundador, então, voltou a ser professor da Coppe. Tinha 60 anos. Retornou às origens, o Programa de Engenharia Química. Deu aulas, nesse programa, por quase uma década, até se retirar de vez com o título de professor emérito da UFRJ, em 1993.

Em dezembro de 1973, num texto em que celebrava o décimo aniversário da Coppe, Sydney escreveu: “[...] a grande dívida é com o professor Alberto Luiz Coimbra, [...] que tudo lhe deu nesses dez anos: trabalho, desvelo, aplicação, esforço e até saúde.”

Em 1995, a instituição que Coimbra sonhou e construiu deu-lhe um dos maiores reconhecimentos que se pode receber em vida: passou a se chamar Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia. Manteve-se, porém, a sigla que ele escolhera 30 anos antes: Coppe

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