Anos 1960

A Coppe nasceu em março de 1963, com o nome de Curso de Mestrado em Engenharia Química da Universidade do Brasil, a antiga denominação da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Criado pela iniciativa e determinação do professor Alberto Luiz Galvão Coimbra, com o apoio de alguns colegas pioneiros, o curso, em algumas décadas, deu origem à maior instituição de ensino e pesquisa em engenharia da América Latina. 

Engenheiro químico e docente da Escola Nacional de Química, Coimbra era um insatisfeito com a qualidade dos cursos de graduação em Engenharia existentes no Brasil. Dizia que, para atender às necessidades de expansão das indústrias e de desenvolvimento do país, faltavam tecnologia e métodos de projeto. Segundo ele, era preciso aliar os princípios científicos básicos da matemática, da física e da química ao espírito prático dos engenheiros, de modo a que praticassem uma verdadeira ciência da engenharia. Do contrário, os brasileiros estariam para sempre condenados a importar tecnologia – cada vez em maior escala e nem sempre adequada às nossas necessidades específicas.

Tendo obtido, em 1949, o título de mestre na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, Coimbra conhecia o sistema de pós-graduação norte-americano, que combinava o ensino e a pesquisa – uma reunião quase inexistente no Brasil da época. Convenceu-se de que era o caminho mais rápido e eficiente para melhorar a formação de engenheiros no país, já que os padrões de qualidade e rigor das práticas da pós-graduação permeariam os cursos de graduação.

Foi assim que, no começo da década de 1960, escolheu três dos seus melhores alunos que estavam se formando no curso de graduação em Engenharia Química - Affonso Silva Telles, Giulio Massarani e Maurício Leonardos - arranjou-lhes bolsas de estudos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e enviou-os aos Estados Unidos para cursarem o mestrado na Universidade de Houston. Na volta, se tornaram professores do curso de pós-graduação que Coimbra criaria. Tal curso, sonhava ele, contribuiria para mudar a universidade brasileira e, a partir dela, o Brasil.

No começo da década de 1960, as universidades brasileiras desconheciam o sistema de pós-graduação com cursos de mestrado e doutorado em vigor nos Estados Unidos. Além disso, salvo raras exceções, não faziam pesquisa. Os cursos superiores eram vistos apenas como espaços de ensino. Havia alguns cursos de pós-graduação, mas, em geral, eram cursos rápidos de especialização, do tipo que mais tarde seria chamado de pós-graduação lato sensu. Na área das engenharias, os professores trabalhavam em tempo parcial; o magistério era uma das ocupações de tais profissionais e sofria a competição de atividades que estes desempenhavam em seus escritórios de projetos, empresas e outras instituições.

Tudo isso era muito diferente do que ocorria nos dois países mais adiantados: os Estados Unidos e a União Soviética, então protagonistas da chamada Guerra Fria, a disputa geopolítica que pôs em confronto as duas potências que emergiram da Segunda Guerra Mundial. Em 1957, os soviéticos assombraram o mundo ao levar os primeiros veículos tripulados ao espaço. Apanhados de surpresa, os americanos se mobilizaram para recuperar o tempo perdido e empreenderam uma grande reforma em seu sistema de ensino e pesquisa científica e tecnológica.

Fascinado com a engenharia fortemente baseada nos princípios matemáticos praticada pelos russos e com a pronta reação das universidades americanas aos feitos tecnológicos dos adversários, o professor Alberto Coimbra percebeu que o momento era propício para tentar algo semelhante no Brasil.

O país vivia, então, a euforia do desenvolvimentismo iniciado no fim da era Vargas e aprofundado na segunda metade dos anos 1950, no governo de Juscelino Kubitschek. Sob o slogan “Cinquenta anos em cinco”, construía-se a nova capital, Brasília, e apostava-se na industrialização para substituição de importações como a chave para o desenvolvimento econômico. Nas artes, o cinema novo e a bossa nova levavam o nome do Brasil para o mundo.

Com esse pano de fundo, Coimbra saiu em busca de apoio para criar um curso de mestrado em Engenharia Química. Frank Tiller, que fora seu orientador de mestrado em Vanderbilt e chefiava, no momento, o Departamento de Química da Universidade de Houston, comprometeu-se a ir ao Brasil dar algumas aulas no novo curso, convencer outros professores norte-americanos a fazer a mesma ação e contatar fundações estrangeiras para obter bolsas para os alunos. Athos da Silveira Ramos, presidente do Instituto de Química da Universidade do Brasil, cedeu-lhe duas pequenas salas no sexto andar do prédio da Escola de Química, no velho campus da Praia Vermelha, Zona Sul do Rio de Janeiro. 

Em março de 1963, começaram as aulas da primeira turma. Os professores eram o próprio Coimbra, os norte-americanos Donald Katz e Louis Brand e os brasileiros Nelson de Castro Faria, Affonso Silva Telles e Giulio Massarani. Os dois últimos tinham recém-chegado do mestrado na Universidade de Houston, para onde Coimbra os mandara com bolsa de estudos. Os alunos, selecionados entre os mais brilhantes recém-formados em diferentes universidades brasileiras, eram Gileno Amaral Barreto, Walmir Gonçalves, Túlio Bracho Henriques, Jair Augusto de Miranda, Carlos Augusto Guimarães Perlingeiro, Paulo Ribeiro, Nelson Trevisan, Edgard Souza Aguiar Vieira e Liu Kai.

Coimbra começou a repetir uma espécie de mantra que se tornaria um dos pilares da instituição nas décadas seguintes: tempo integral e dedicação exclusiva para professores e alunos. Condição sine qua non, dizia ele, para garantir o salto de qualidade capaz de contribuir para mudar o cenário da universidade brasileira. Deu o exemplo: largou seis dos sete trabalhos que até então o sustentavam e passou a dar expediente integral na universidade.  

Para assegurar a permanência de professores e alunos brilhantes em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, era preciso ter dinheiro para pagar salários condizentes com os oferecidos por empresas. As bolsas garimpadas em diferentes instituições brasileiras e estrangeiras ajudavam a atrair alunos, mas não serviam para mantê-los na universidade como professores. Para que fizessem pesquisas, era preciso também montar laboratórios adequados.

Nesse momento, Coimbra conheceu o economista José Pelúcio Ferreira, chefe de uma divisão no então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), ainda sem o “S” (indicativo de “Social”) que mais tarde lhe seria adicionado.

Criado em 1952 com o propósito de promover o desenvolvimento do país por meio do estímulo à industrialização, o BNDE financiava a instalação e ampliação de indústrias e dispunha de uma verba para financiar treinamento de pessoal para as empresas. Mas a verba não era utilizada, porque treinamento de recursos humanos era um conceito desconhecido das empresas brasileiras de então.

Juntos, Pelúcio e Coimbra propuseram ao BNDE utilizar os recursos para financiar, a fundo perdido, a formação de professores e pesquisadores de alto nível nas universidades. Assim, foi criado em 1964 o Fundo de Desenvolvimento Técnico-Científico (Funtec). O primeiro financiamento foi para o Curso de Mestrado em Engenharia Química.

Os recursos do Funtec animaram Coimbra a criar, em 1965, o segundo curso de mestrado, desta vez em Engenharia Mecânica. Era preciso, então, um nome que englobasse os dois cursos e os próximos que seriam criados. Foi assim que surgiu o nome Coppe – Coordenação dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia.

Para recrutar alunos, Coimbra inventou um método: mandava duplas de professores em missão pelas cidades onde havia cursos de graduação em Engenharia. Os enviados punham um anúncio no jornal local, convidando estudantes em fim de curso a se apresentarem num hotel em determinado horário. Explicavam o que era mestrado, descreviam a Coppe e entrevistavam os interessados. Se o jovem parecesse promissor, era informado de que havia uma bolsa de estudos esperando por ele no Rio de Janeiro.

O crescimento foi vertiginoso. Em 1967, quando se mudou para instalações mais amplas na Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, a Coppe já tinha sete programas em funcionamento. Em 1968, quando o Ministério da Educação promoveu a reforma do sistema universitário, a pós-graduação foi oficializada no Brasil nos moldes que já eram praticados pela Coppe.

Em 1969, o Ministério do Planejamento, inspirado na experiência do BNDE com o Funtec, criou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). José Pelúcio foi chamado para geri-lo dentro da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada àquele ministério. Foi um grande salto nos recursos disponíveis para financiar a pesquisa científica e tecnológica.

Quando a década terminou, estavam criados 7 dos 13 cursos de pós-graduação que hoje formam a Coppe. As dissertações de mestrado se sucediam, iniciavam-se os cursos de doutorado, empresas começavam a procurar os professores para pedir soluções para seus problemas tecnológicos.

A Coppe era tão poderosa que nem a ideologia fortemente anticomunista do regime militar instalado no Brasil desde 1964 a impediu de fazer o que considerava melhor para sua excelência acadêmica: por exemplo, ir buscar estrelas da ciência soviética para dar aulas no Fundão. Em 1968, enquanto o governo editava o Ato Institucional no 5, que suprimiu as liberdades civis e instaurou de fato a ditadura militar no país, chegavam professores soviéticos convidados pelo fundador e diretor da Coppe, Alberto Luiz Galvão Coimbra, com as bênçãos do Ministério das Relações Exteriores e da embaixada soviética em Brasília. Vieram, entre outros, Victor Lenski, sumidade internacional em resistência de materiais, e Dimitri Vastvoscev, reconhecido nome da engenharia naval.

O sucesso alcançado pela Coppe logo em seus primeiros anos de vida estaria na raiz da crise que se abateu sobre a instituição na década seguinte e quase acabou com ela.  

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